Quais documentos separar antes de começar a auditoria das demonstrações?

Organized workspace featuring a calendar, tax documents, and planner essentials.
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A auditoria das demonstrações financeiras é um processo complexo que exige organização rigorosa e documentação completa. Os documentos para auditoria das demonstrações são a base sobre a qual os auditores constroem suas análises, verificando a conformidade das informações contábeis com as normas regulatórias e garantindo a credibilidade dos números apresentados pela empresa. Sem essa documentação estruturada, fica impossível conduzir uma auditoria eficaz ou atender às exigências de órgãos reguladores e stakeholders.

A R&V Auditores e Consultores compreende que cada empresa enfrenta desafios diferentes na preparação desses documentos, especialmente quando se trata de organizar registros, comprovantes e evidências contábeis de forma que atendam aos critérios técnicos de uma auditoria independente. Nossa experiência em auditoria, consultoria contábil e gestão fiscal nos permite orientar empresas de diversos portes sobre quais documentos precisam ser reunidos, como organizá-los e como garantir que estejam em conformidade com as melhores práticas.

Neste guia, você encontrará informações práticas sobre os principais documentos necessários para uma auditoria das demonstrações, como prepará-los adequadamente e por que essa preparação é fundamental para o sucesso do processo.

Quais documentos separar antes de começar a auditoria das demonstrações?

Organizar os documentos para auditoria das demonstrações antes do início dos trabalhos é uma das etapas mais subestimadas pelas empresas — e uma das que mais impactam o prazo e o custo do processo. Quando o auditor independente chega ao campo e precisa interromper o trabalho para solicitar informações que deveriam estar disponíveis desde o início, o cronograma se estende, as horas faturáveis aumentam e o risco de achados desnecessários cresce. A lógica é simples: quanto mais estruturada a empresa estiver, mais eficiente e menos onerosa será a auditoria.

Este guia detalha, por categoria, o conjunto essencial de documentos e informações que toda empresa deve reunir antes de receber sua equipe de auditores, independentemente do porte ou do setor de atuação.

Demonstrações financeiras e registros contábeis

O ponto de partida óbvio — mas que merece atenção quanto à completude e ao formato — são as próprias demonstrações financeiras do exercício a ser auditado e do exercício anterior, para fins de comparação. Isso inclui:

  • Balanço Patrimonial (BP) do exercício corrente e do anterior;
  • Demonstração do Resultado do Exercício (DRE);
  • Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC);
  • Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL);
  • Demonstração do Valor Adicionado (DVA), quando aplicável;
  • Notas explicativas em versão preliminar ou definitiva, conforme o estágio do fechamento contábil.

Além das demonstrações em si, o auditor precisará do balancete analítico fechado no último dia do exercício, preferencialmente exportado do sistema contábil em formato que permita cruzamento eletrônico de dados. Razões auxiliares de todas as contas relevantes — caixa, bancos, contas a receber, estoques, imobilizado, fornecedores, empréstimos e patrimônio líquido — também devem estar disponíveis. Livros diário e razão devidamente autenticados completam esse bloco.

Documentos societários e estatutários

A auditoria não examina apenas números: ela verifica se os atos praticados pela administração estão respaldados por deliberações formais dos sócios ou acionistas. Por isso, é indispensável reunir:

  • Contrato social ou estatuto social consolidado e todas as alterações posteriores registradas;
  • Atas de assembleias gerais ordinárias e extraordinárias realizadas no exercício;
  • Atas de reuniões do conselho de administração e do conselho fiscal, quando existentes;
  • Livro de registro de acionistas ou quotistas atualizado;
  • Procurações e instrumentos de delegação de poderes vigentes;
  • Acordos de sócios ou shareholders’ agreements que possam afetar a consolidação ou o reconhecimento de instrumentos financeiros.

Empresas que passaram por reorganização societária no período — incorporações, cisões, fusões ou constituição de holdings — devem providenciar também os laudos de avaliação e os documentos de transferência de ativos. Se você ainda não tem clareza sobre quem deve elaborar esses laudos, vale consultar o conteúdo sobre quem elabora o laudo contábil de reorganização societária.

Contratos e obrigações relevantes

Grande parte dos ajustes contábeis identificados em auditorias tem origem em contratos mal classificados ou não reconhecidos adequadamente. O auditor precisará examinar:

  • Contratos de empréstimos, financiamentos e debêntures, com cronogramas de amortização e cláusulas de covenants;
  • Contratos de arrendamento (leasing e aluguel), para verificação da aplicação do CPC 06 (IFRS 16);
  • Contratos de prestação de serviços de longo prazo e de receita diferida;
  • Contratos com partes relacionadas — fornecedores, clientes ou prestadores vinculados a sócios ou administradores;
  • Contratos de seguros com vigência no exercício;
  • Garantias prestadas e recebidas, avais e fianças;
  • Contratos de compra e venda de participações societárias.

Para empresas que buscam financiamento junto a instituições de fomento, vale lembrar que a apresentação de demonstrações auditadas é frequentemente exigida — como ocorre nos processos analisados em nosso artigo sobre se o BNDES exige demonstrações auditadas para financiamento.

Documentação fiscal e tributária

A conciliação entre os registros contábeis e as obrigações acessórias entregues ao fisco é um dos procedimentos centrais de qualquer auditoria. Para isso, a empresa deve disponibilizar:

  • ECF (Escrituração Contábil Fiscal) e ECD (Escrituração Contábil Digital) do exercício;
  • SPED Fiscal e SPED Contribuições;
  • DCTF, DIRF e demais declarações entregues à Receita Federal;
  • Guias de recolhimento de tributos federais, estaduais e municipais (IRPJ, CSLL, PIS, COFINS, ICMS, ISS, entre outros);
  • Certidões negativas de débito federal, estadual e municipal;
  • Autos de infração, notificações fiscais e processos administrativos em andamento;
  • Laudos de preço de transferência, quando aplicável.

Empresas com histórico de contingências tributárias relevantes devem considerar também uma revisão fiscal dos últimos cinco anos antes do início da auditoria, para identificar e provisionar passivos que possam impactar as demonstrações.

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Documentação bancária e de caixa

A confirmação de saldos bancários é um procedimento padrão em qualquer auditoria de demonstrações financeiras. Para agilizar essa etapa, a empresa deve reunir:

  • Extratos bancários de todas as contas correntes, de investimento e de aplicação financeira, com saldo na data de encerramento do exercício;
  • Conciliações bancárias elaboradas internamente, conta a conta;
  • Relação de cheques emitidos e não compensados na data-base;
  • Cartas de confirmação bancária já solicitadas ou modelo para que o auditor as envie diretamente às instituições;
  • Controle de caixa pequeno com comprovantes do período.

Documentação de ativos — imobilizado, intangíveis e investimentos

Ativos de longo prazo exigem documentação específica para que o auditor possa verificar existência física, propriedade, avaliação e adequação das taxas de depreciação ou amortização aplicadas:

  • Inventário físico do imobilizado com data próxima ao encerramento do exercício;
  • Fichas de controle de ativo fixo com valor histórico, depreciação acumulada e valor líquido contábil;
  • Notas fiscais de aquisições e documentos de baixa do período;
  • Laudos de avaliação de ativos reavaliados ou submetidos a teste de impairment (CPC 01);
  • Registros de patentes, marcas e outros intangíveis junto ao INPI;
  • Demonstrativos de participações societárias em coligadas e controladas, com memória de cálculo do método de equivalência patrimonial.

Documentação de estoques

Para empresas industriais, comerciais ou que mantêm estoques significativos, o auditor normalmente realiza ou observa a contagem física. A documentação de suporte inclui:

  • Relatório de inventário físico com data próxima ao encerramento, assinado pelos responsáveis;
  • Política de valoração de estoques adotada (PEPS, custo médio ponderado) e memória de cálculo;
  • Relação de itens obsoletos, com provisão para perdas constituída;
  • Notas fiscais de entrada e saída do período para amostragem;
  • Controle de consignação, quando aplicável.

Documentação de recursos humanos e folha de pagamento

Passivos trabalhistas e provisões relacionadas a benefícios a empregados são fontes frequentes de ajustes em auditorias. Os documentos necessários incluem:

  • Folhas de pagamento mensais do exercício;
  • GFIP/eSocial e DARF de recolhimento do FGTS e INSS;
  • Relação de funcionários ativos com data de admissão, cargo e remuneração;
  • Memória de cálculo das provisões de férias, 13º salário e encargos;
  • Acordos coletivos de trabalho e convenções coletivas vigentes;
  • Passivos trabalhistas em litígio, com pareceres do advogado trabalhista sobre probabilidade de perda.

Pareceres jurídicos e contingências

A norma contábil exige que passivos contingentes sejam reconhecidos ou divulgados conforme a probabilidade de desembolso. Para isso, o auditor solicitará:

  • Relação de processos judiciais e administrativos em andamento (cível, trabalhista, fiscal e ambiental);
  • Pareceres dos advogados externos com classificação do risco (provável, possível ou remoto) e estimativa de valor;
  • Demonstrativo das provisões constituídas e memória de cálculo;
  • Decisões judiciais transitadas em julgado no período.

Empresas que possuem conselho fiscal ativo devem estar cientes de que esse órgão pode solicitar auditoria independente como parte de seu papel fiscalizatório. Entender como estruturar a contratação quando o conselho fiscal pede auditoria ajuda a alinhar expectativas e documentação desde o início.

Políticas contábeis e manuais internos

O auditor precisa entender o ambiente de controles internos e as escolhas contábeis adotadas pela empresa para avaliar se as demonstrações refletem adequadamente a realidade econômica. Por isso, devem ser disponibilizados:

  • Manual de políticas contábeis formalmente aprovado pela administração;
  • Fluxogramas ou descrições dos principais processos (compras, vendas, recebimentos, pagamentos, folha);
  • Relatórios de auditoria interna ou de controles internos emitidos no exercício;
  • Plano de contas analítico com descrição das contas;
  • Relatórios de sistemas de TI que suportam os registros contábeis, incluindo log de acessos e alterações.

Empresas que contratam auditoria de controles internos separada das demonstrações financeiras — como a emissão de relatórios SOC 1 ou SOC 2 — devem verificar quem pode emitir esse tipo de relatório no Brasil e quais documentos adicionais são exigidos nesse contexto.

Informações para partes relacionadas e transações intercompany

Transações com partes relacionadas são área de atenção especial para auditores, pois podem mascarar transferências de resultado ou passivos não reconhecidos. A empresa deve preparar:

  • Relação completa de partes relacionadas (sócios, administradores, empresas do grupo, familiares em posição de influência);
  • Demonstrativo de todas as transações realizadas com essas partes no exercício (vendas, compras, empréstimos, aluguéis, honorários);
  • Contratos formalizados para cada tipo de transação intercompany;
  • Memória de cálculo de juros e preços praticados, com demonstração de que refletem condições de mercado.

Como organizar e entregar a documentação

A forma de entrega impacta diretamente a eficiência do trabalho. As melhores práticas incluem organizar os documentos em uma plataforma de compartilhamento seguro (como uma pasta estruturada no SharePoint, Google Drive corporativo ou sistema de data room), com nomenclatura padronizada e índice de referência cruzada com os itens solicitados pelo auditor. Muitas firmas de auditoria enviam previamente um PBC list (Prepared by Client list), que é exatamente a lista de documentos esperados — responder a esse checklist de forma completa e dentro do prazo acordado é o principal fator para evitar atrasos e custos adicionais.

Empresas que consideram terceirizar parte da preparação contábil antes da auditoria — ou que avaliam se a mesma firma pode cuidar de contabilidade e auditoria — encontram uma análise detalhada sobre esse tema em nosso artigo sobre se a mesma empresa pode fazer a contabilidade e a auditoria. Para empresas que ainda estão definindo o escopo e o investimento necessário, o artigo sobre quanto custa uma auditoria independente para empresa de médio porte oferece parâmetros úteis para o planejamento orçamentário.

Em resumo, a preparação documental não é burocracia: é a base sobre a qual o auditor constrói sua opinião. Empresas que chegam bem preparadas reduzem o tempo de campo, diminuem o risco de ressalvas e demonstram maturidade de governança — o que, por si só, já agrega valor ao relatório final.

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Fernando Campos

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