Da Revolução Industrial à era digital, sucessivas inovações transformaram a economia e a sociedade. Agora, a inteligência artificial já está mudando as profissões, as empresas e a maneira como vivemos. Seria ela a verdadeira sexta onda?
Ao longo da história, a humanidade passou por diferentes ondas de inovação, responsáveis por profundas transformações econômicas e sociais. Uma das classificações históricas identifica cinco grandes períodos:
- Primeira onda — Revolução Industrial (1785–1845): marcada pela mecanização da produção e pelo surgimento das primeiras máquinas industriais.
- Segunda onda — Era do Vapor (1845–1900): impulsionada pelas ferrovias, pelos transportes e pela expansão industrial.
- Terceira onda — Era da Eletricidade (1900–1950): caracterizada pela eletrificação, pelos avanços industriais e pelas novas tecnologias de comunicação.
- Quarta onda — Produção em Massa (1950–1990): marcada pela expansão industrial, pela padronização da produção e pelo crescimento do consumo.
- Quinta onda — Era das Redes e da Informação (aproximadamente 1990–2020): impulsionada pelos computadores, pela internet, pelas telecomunicações e pela conectividade global.
Embora existam diferentes classificações e delimitações históricas, essas ondas apresentam uma característica comum: foram impulsionadas por inovações capazes de modificar estruturalmente a economia e a sociedade. Mas qual seria a sexta onda?
O ESG: transformação ou marketing?
Nos últimos anos, o ESG, sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança, passou a ser apresentado como uma possível sexta onda de inovação.
O movimento ganhou projeção especialmente a partir de 2020, quando Larry Fink, presidente-executivo da BlackRock, destacou em sua carta anual aos executivos a importância da sustentabilidade nas decisões de investimento.
A partir daquele momento, sustentabilidade, diversidade, responsabilidade social e governança corporativa passaram a ocupar espaço significativo nas estratégias empresariais.
Entretanto, com o passar dos anos, surgiram questionamentos sobre a efetividade dessas iniciativas.
Até que ponto o ESG representava uma transformação real na gestão das organizações e até que ponto havia se tornado uma estratégia de marketing?
Em determinadas situações, compromissos ambientais e sociais foram amplamente divulgados sem resultados concretos correspondentes, fenômeno associado ao chamado greenwashing.
O movimento também passou a enfrentar resistências políticas, especialmente nos Estados Unidos. Donald Trump intensificou críticas a determinadas políticas ambientais e de diversidade, frequentemente associadas ao debate sobre a cultura woke.
Paralelamente, parte do mercado financeiro passou a adotar uma postura mais pragmática em relação ao ESG. O próprio Larry Fink reduziu o uso da expressão em seus discursos, embora isso não signifique que tenha abandonado a preocupação com riscos climáticos e sustentabilidade.
No Brasil, a discussão sobre a obrigatoriedade das informações de sustentabilidade também ganhou relevância, especialmente diante das exigências estabelecidas pela CVM e dos debates sobre sua implementação.
Esses movimentos levantam uma questão: o ESG está perdendo importância ou apenas deixando de ser tratado como uma grande novidade empresarial?
Provavelmente, a segunda hipótese explica melhor o cenário.
A sustentabilidade, a responsabilidade social e a governança corporativa continuam relevantes. O que parece estar perdendo espaço é a utilização dessas expressões como instrumentos de promoção institucional sem resultados efetivos.
O metaverso e as promessas tecnológicas
Outro exemplo recente foi o metaverso.
Apresentado como uma revolução capaz de transformar o trabalho, o consumo e as relações humanas, o metaverso atraiu investimentos bilionários e grande atenção do mercado.
Entretanto, sua adoção não ocorreu na dimensão inicialmente anunciada.
Embora as tecnologias de realidade virtual e aumentada continuem evoluindo, o metaverso demonstrou que nem toda inovação amplamente divulgada se transforma necessariamente em uma mudança estrutural.
E então a inteligência artificial ganhou protagonismo.
A inteligência artificial já é uma realidade
Diferentemente de outras tendências, a inteligência artificial não representa apenas uma promessa para o futuro.
Ela já está presente nas empresas, nos escritórios, nas instituições financeiras, nos hospitais e nas atividades cotidianas.
Ferramentas inteligentes conseguem analisar documentos, interpretar informações, desenvolver programas, identificar inconsistências e auxiliar na tomada de decisões.
Se as primeiras ondas de inovação ampliaram principalmente a capacidade física e produtiva do ser humano, a inteligência artificial está ampliando e, em determinadas atividades, substituindo parte de sua capacidade intelectual.
Essa transformação já está modificando o mercado de trabalho.
Profissões como medicina, direito, engenharia, contabilidade e auditoria independente estão incorporando ferramentas capazes de executar tarefas que anteriormente demandavam horas de trabalho.
Nesse cenário, a empregabilidade passa a depender também da capacidade de adaptação tecnológica.
Os profissionais precisarão aprender a utilizar a inteligência artificial, compreender suas limitações e desenvolver competências que complementem suas capacidades técnicas.
Algumas atividades poderão desaparecer, outras serão transformadas e novas profissões surgirão.
Isso não significa o fim do conhecimento especializado ou do julgamento profissional. Pelo contrário, a capacidade de interpretar informações, exercer pensamento crítico e tomar decisões fundamentadas continuará essencial.
A inteligência artificial não representa apenas uma mudança nas ferramentas de trabalho, mas uma transformação na própria maneira como o conhecimento é produzido e utilizado.
Os desafios ambientais da inteligência artificial
Entretanto, essa revolução também apresenta desafios.
A expansão da inteligência artificial exige grandes centros de processamento de dados, conhecidos como data centers, que demandam quantidades significativas de energia elétrica e, dependendo dos sistemas de resfriamento, também de água.
Surge, portanto, uma aparente contradição: uma tecnologia capaz de aumentar a produtividade e melhorar a eficiência econômica também poderá ampliar a pressão sobre os recursos naturais.
Por outro lado, a própria inteligência artificial poderá contribuir para desenvolver soluções ambientais e melhorar a eficiência energética.
Essa realidade demonstra que a sustentabilidade e a governança corporativa continuarão importantes, inclusive para administrar os impactos da transformação tecnológica.
Afinal, qual é a sexta onda?
O ESG representa um conjunto de princípios que orientam a maneira como as organizações administram seus riscos, impactos e responsabilidades.
A inteligência artificial, por sua vez, já está modificando processos produtivos, modelos de negócios, profissões e relações de trabalho.
Essa diferença é fundamental.
Enquanto o ESG procura orientar a maneira como as empresas devem agir, a inteligência artificial está transformando a maneira como elas operam.
Por essa perspectiva, a inteligência artificial apresenta características que permitem considerá-la uma forte candidata à sexta onda de inovação, embora essa classificação não seja consensual.
Isso não significa que o ESG esteja desaparecendo. Seus princípios continuam relevantes, especialmente no campo da governança corporativa.
A expansão da inteligência artificial exige das empresas controles adequados, gestão de riscos, proteção de dados, transparência e responsabilidade pelas decisões tomadas com apoio de sistemas inteligentes.
Conselhos de administração e diretorias precisarão incorporar esses desafios às suas estruturas de governança.
O ESG não precisa ser a sexta onda para continuar sendo importante. E a inteligência artificial não poderá representar um avanço sustentável se sua utilização ignorar a ética, a responsabilidade e a boa governança corporativa.
Se as ondas anteriores transformaram a maneira como o ser humano produz, transporta, consome e se comunica, a inteligência artificial já está transformando a maneira como ele aprende, trabalha e toma decisões.
A sexta onda, portanto, pode não ser uma promessa distante. Talvez já estejamos vivendo seus primeiros grandes efeitos.
A questão deixou de ser quando a inteligência artificial transformará nossas vidas. Essa transformação já começou. A verdadeira pergunta é: estamos preparados para acompanhá-la?
